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Ordenado padre cinco décadas atrás, José Marinoni celebra bodas de ouro

27/07/2020
Por  ANEC Comunicação

Rigoroso com horário, José Marinoni manda um recado: se a gente for pontual, podemos encontrá-lo na chácara onde mora, para frente da UCDB, às 8h30. Caso contrário, fica para 10h30, em seu gabinete da reitoria, onde deve passar para assinar documentos. Se com atraso de noiva o padre já terminou fazendo um casamento duplo, optamos por encontrá-lo na Universidade.

Em uma ampla sala, com a mesa limpa, sem a pilha de documentos que o aguarda para serem assinados com a secretária, o padre José Marinoni nos recebe com um sorriso para narrar uma trajetória que começou na Itália e desembarcou no Brasil, mais exatamente em Campo Grande, em 1960, quando tinha 18 anos.

“De idade, tenho 78, de sacerdócio, 50. Já pensou?”

O colégio onde estudava em Piemonte, ao norte da Itália, tinha uma espécie de parceria com países, então depois que os estudantes terminavam o Ensino Médio, se quisessem, poderiam se candidatar às missões. Os superiores escolhiam quem iria e para onde. Os destinos eram: América Latina, Médio Oriente e Extremo Oriente.

Ao terminar os estudos, José Marinoni se candidatou à vaga com outros 11 alunos, mas não foi aceito de primeira, assim como metade da turma. Porém, no ano seguinte, recebeu o convite. A resposta foi afirmativa. “Fomos fazer mais um ano de estudo em Turim e no final do ano recebemos a notícia. ‘Não querem ir para as missões?’ Vamos sim, mas como éramos um grupo um pouco bagunceiro, para desmanchar a panelinha, nos mandaram cada um para um lugar”, recorda.

Assim Marinoni veio para o Brasil, especificamente para Campo Grande, estudar Filosofia no instituto da Lagoa da Cruz.

A vontade de ser missionário teve como influência a experiência dos que já realizavam os trabalhos fora do país e, nas férias, ao retornaram à Itália, iam aos colégios falar das missões. “Imagina, um jovem de 15, 16 anos? A gente ficava empolgado com aquilo, querendo ir”.

Filho do meio, Marinoni veio de uma família muito religiosa. Nascido em Fenegrò, na província de Como, ao norte da Itália, o padre recorda do hábito da mãe de ir à missa todos os dias. “A gente também rezava o terço todos os dias, éramos aquelas famílias antigas. Agora, infelizmente, as coisas mudaram. Naquela época não tinha TV, internet, que são coisas boas, e a gente tinha que fazer isso. A religiosidade que era vivenciada antigamente, hoje o povo se limita a manifestar em situações mais recorrentes de festas e aniversários. Mas minha mãe, repito, era de uma fé, que Deus me livre!”.

Influenciado também pelos padres com quem estudava e aprendia, José Marinoni tinha como passeio idas de bicicleta da escola até os seminários que ficavam 10 quilômetros distante do colégio. “O padre era esperto, levava a gente para visitar os seminários, era uma maneira de passear, se divertir e ao mesmo tempo conhecer”.

No final de outubro de 1960, aos 18 anos, José Marinoni chegou a Campo Grande e passou o restinho daquele ano estudando português para no ano seguinte começar Filosofia. Sentiu a diferença na cultura, no modo de viver e na comida, além da questão da língua. “Mas quando você é jovem, leva aquilo na aventura. Vamos enfrentar e é claro que de início você estranha, mas a partir do momento que veio com a ideia de ficar e fazer o que você se propõe, as coisas são superadas facilmente”.

Ordenação – A cerimônia que ordenou José Marinoni como padre aconteceu no dia 25 de julho de 1970, na Igreja São José, que à época era a catedral de Campo Grande. A ordenação foi dividida entre ele e o colega chamado José Benito.

A igreja havia concedido a algumas congregações, entre elas os salesianos, que os estudantes do quarto ano de Teologia poderiam ser ordenados padres na metade do ano, sem ainda ter concluído o curso. “E então no dia 25 de julho, Dia de São Tiago, fomos ordenados por Dom Antônio Barbosa, que era o bispo. Fiquei muito amigo dele quando trabalhei pela primeira vez aqui em Campo Grande”, conta o padre.

No dia seguinte, domingo, 26 de julho, o então padre rezou a primeira missa na capela do Colégio Dom Bosco. “Você fica nervoso, com medo de errar, mas a gente já sabia. Você se prepara durante a Teologia, eu já fazia alguns ensaios para não fazer feio, mas tem aquele ditado: ‘Até o padre erra quando reza a missa’ e sendo a primeira, eu podia errar”, brinca.

A amizade com Dom Antônio Barbosa incluía, no período da Ditadura, visitas aos presos políticos na companhia do arcebispo. “Ele visitava todos, independentemente do partido, eu fui várias vezes com ele”. A visita que vem à memória do padre é ao também padre Gentel, um francês, que havia sido preso no interior do Mato Grosso e trazido ao presídio de Campo Grande, que à época funcionava onde hoje é o fórum.

De casamentos, nos 50 anos de sacerdócio, Marinoni já perdeu as contas de quantos “sim” já viu serem ditos no altar. Isso porque mesmo não sendo pároco, atendia ao pedido dos alunos para casá-los e também quando chegava a vez dos filhos. “Fui professor em 65 e 66 no Colégio Dom Bosco, depois voltei em 71 e em 81 como diretor. Então, o pessoal foi crescendo e me conhecia, aí me convidavam para fazer o casamento”, relata.

O padre sempre fez questão de ser pontual e já chegou até a apostar com uma noiva. Ela, filha de militares, disse a Marinoni que chegaria na hora certa. “E dito e feito, às 18h em ponto ela chegou, e olha que é difícil noiva chegar no horário”, brinca.

Outra história de casamento veio quando a igreja marcou duas celebrações.  A primeira para 19h e a segunda para 19h30. “Eu fui às 19h, cheguei lá e cadê a noiva? Esperamos 10, 15, 20 minutos, chegou a noiva do segundo casamento e eu falei para o noivo do primeiro: ‘e agora?’ ele me dizia que ela já estava chegando”, conta. Às 19h30, com todos os noivos presentes, o padre resolveu que o casamento seria duplo. “Eu não vou fazer dois casamentos, porque vocês não vão querer esperar e todos os parentes, tanto de um quanto de outro, vamos fazer os dois juntos”.

De alunos, o padre invoca até Ave Maria ao falar “Ave Maria! Essa pergunta é meio complicada”. E os dados da trajetória mostram o porquê. Em Cuiabá, onde o padre foi diretor por dois anos e meio, eram 5 mil alunos. Depois, como professor do Dom Bosco, nos anos 71 a 73 e, em 81, 82, 83 e 84, como diretor do colégio e das Faculdades Unidas Católicas, a Fucmat, foram mais de 7 mil alunos. Marinoni voltou à direção nos anos 90 e ficou só como reitor da universidade a partir de 1995, com uma média de mil alunos formados ao ano.

“Eu lembro dos rostos, mas se me perguntar os nomes, eu não sei. Quando encontro alguém que era do Dom Bosco, eu falo: ‘você sentava na terceira fileira do lado esquerdo’, isso eu me lembro”, diz.

A história do padre e da cidade de Campo Grande se misturam, tanto dele como testemunha dos fatos como também participante ativo que educou e formou muita gente.

Se sente falta da família, Marinoni diz que saiu de casa muito cedo, de 10 para 11 anos e voltava para casa apenas uma vez ao ano. “O fato de você estar longe da sua terra, dos seus familiares, há sim momentos em que você realmente sente. Eu já fiquei 10 anos sem voltar para a Itália, e quando voltei me perguntei: ‘por que não antes?'”.

“São coisas que você vai aprendendo aos poucos e isso é normal, natural do ser humano. Você não consegue esquecer, não consegue não ter essa saudade dos seus familiares”, completa. Antes do telefone e da internet, era por carta que ele se comunicava com os pais. Dona Orsola, conhecida como Lina, e seu Cláudio, pais de Marinoni, morreram em 1983 e 1984, respectivamente. O padre foi nas duas ocasiões para os enterros.

Na carreira sacerdotal, o padre conheceu o Papa João XXVIII, ainda quando era estudante em Roma, durante uma benção do papa ao colégio em Roma, em 1958; o Papa Paulo VI, mas não como papa, e sim arcebispo de Milão; depois João Paulo II durante o capítulo geral dos salesianos e também em visita do Papa a Campo Grande, em 1990. Com o atual, Papa Francisco, não chegou a conversar, embora já tenham ficado a uma distância de 5 metros.

Em relação ao italiano e ao português e a dúvida sobre em qual língua a oração do Pai Nosso é mais bonita, Marinoni diz que toda oração é bonita, que em português é bonito, mas não tem a mesma sonoridade que o italiano.

Nos 50 anos de sacerdócio, Marinoni diz que aprendeu muita coisa, mas o que gostaria de dizer é que ser padre não é fácil. A entrega à atividade exige que a cada momento da história haja uma adaptação. “Mas acho que consegui aprender e o que me ajudou muito foi saber ouvir, escutar as pessoas”.

Como toda fala de Marinoni é seguida de um exemplo, o padre volta aos tempos de diretor do Dom Bosco para justificar. “No intervalo, eu sempre saía para ficar com os meninos e um dia vi uma moça sentada no último degrau da escada chorando. Perguntei o que havia acontecido e se ela queria conversar. Ela sentou na minha sala e começou a falar, falar, falar. Falou 15 minutos sem parar e quando terminou eu fui dizer e ela disse que eu não precisava falar nada, só o fato de ter ouvido já tinha deixado ela tranquila, porque em casa ninguém a escutava. O fato de você saber ouvir, saber escutar e deixar que a pessoa fale e diga o que sente é o segredo para qualquer coisa”.

Quanto a ficar ou não na reitoria da universidade ou até mesmo em Campo Grande nos próximos anos, Marinoni diz não depender dele. “Eu estava aqui há 20 anos, me mandaram para Brasília, depois me falaram que eu ia ficar lá três anos, fizeram uma avaliação e me confirmaram por mais três anos, e um ano depois trocaram e eu estou aqui, mas pode ser que amanhã ou depois precisem de mim e a gente só obedece”.

Já aposentado no papel, na prática, Marinoni não pretende deixar o trabalho na educação. “Enquanto tiver saúde e tudo, não. Eu vou fazer o que? Ficar o dia inteiro à toa?”, se pergunta.

Na pandemia, ele tem ficado mais em casa e recebe os documentos para assinar, além de participar de videoconferências. A primeira live da qual estará à frente acontece na próxima segunda, quando o padre for recepcionar os professores da UCDB.

A comemoração dos 50 anos será tranquila, com uma missa de ordenação de um padre, na igreja da universidade, obra pelo qual Marinoni batalhou para ver reconhecida como paróquia universitária.

Parte da comemoração será “em casa”, na Itália, no final do ano, na mesma igreja onde cinco décadas atrás Marinoni rezou sua primeira missa no país. “Fui ordenado aqui dia 25 de julho e na Itália, na minha paróquia, celebrei a primeira missa dia 8 de dezembro”, feitio que ele espera repetir. Na terra natal, o padre não só celebra a missa como também atende confissões em italiano e também no dialeto da região, o milanês.

Por fim, terminamos a entrevista com a pergunta que volta e meia retoma os noticiários. A UCDB pode virar PUC? A resposta é que já há muitas PUC’s pelo país. “Veja bem, 10 dias atrás faleceu o cardeal que na época em que a Universidade de Goiânia foi declarada PUC, e eu estive naquela oportunidade como presidente da Associação Nacional de Educação Católica, esse cardeal falou: ‘chega de PUC, no Brasil inteiro temos PUC’s demais’. O padre Ricardo e os pró-reitores que vieram depois de mim tentaram fazer o pedido e a resposta foi essa”, conta.

Em uma conversa informal com Dom Dimas, arcebispo da Capital, Marinoni fala que eles cogitaram realizar novamente o pedido. “Mas isso demora, exige uma série de procedimentos que não são fáceis e, por outro lado, ser PUC é uma espécie de status, e que exigiria que todos os professores, currículos e conteúdos programáticos dos cursos, tudo deveria ser avaliado pela Sagrada Congregação, que é a responsável pela educação católica. É uma responsabilidade muito grande. Nem sempre isso é possível. Se a gente conseguir, ótimo, se não conseguir, o importante é que a universidade viva a própria identidade. É uma universidade católica e salesiana, portanto o que é católico e salesiano tem que ser vivenciado”.

 


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