Primeiro dia do encontro promovido pela ANEC destacou currículo evangelizador, diálogo com os territórios sociais, boas práticas de redes católicas e a inspiração de Maria de Nazaré para uma educação comprometida com o encontro, a solidariedade e a esperança
A Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (ANEC) deu início, nesta quinta-feira, 27/8, ao Seminário Nacional de Pastoral Escolar 2026, reunindo agentes de Pastoral, gestores e educadores em um dia de formação, partilha e reflexão sobre os caminhos da escola católica no contexto contemporâneo na PUC PR, em Curitiba/PR. Com o tema “Em comunhão, desenhando mapas de esperança: integração pedagógico-pastoral”, o encontro propõe aproximar ainda mais as dimensões pedagógica, pastoral e institucional da missão educativa.
A programação começou com a Eucaristia, na Paróquia Universitária Jesus Mestre, presidida por Dom José Antônio Peruzzo, momento que marcou o início do Seminário a partir da espiritualidade e da comunhão que orientam a missão da educação católica.
Na sequência, os participantes foram acolhidos pela Irmã Carolina Mureb Santos, diretora do Setor de Animação Pastoral da ANEC e pelo coordenador do setor, Walberson Martins, no Auditório Gregor Mandel. A conferência de abertura trouxe o tema “Currículo e pastoralidade: uma escola católica que dialoga com os territórios sociais”, conduzida pela gerente da Câmara de Ensino Superior, professora Roberta Guedes, e mediada pelo Ir. Miguel Fernandes Ribeiro.
Em sua reflexão, a pós-doutora Roberta Guedes provocou os participantes a compreenderem o currículo para além da organização de conteúdos e cargas horárias. A proposta apresentada parte da compreensão de que o currículo evangelizador é expressão pedagógica da missão da escola e integra ciência, cultura, fé e vida em uma perspectiva de formação integral.
A conferência também chamou atenção para as transformações que atravessam a educação. A revolução digital e a inteligência artificial, a crise socioambiental e as desigualdades sociais exigem, conforme apresentado, uma renovação do próprio ato educativo. Nesse cenário, a educação não pode ser medida apenas pela eficiência, mas também pela dignidade, pela justiça e pela capacidade de servir ao bem comum.
Outro ponto central foi a relação entre escola e território. Os territórios sociais foram apresentados como lugares pedagógicos e teológicos da aprendizagem, nos quais emergem questões capazes de tornar o conhecimento escolar contextualizado e interdisciplinar. A escola é chamada, assim, a escutar a realidade, investigá-la e retornar a ela com ações transformadoras.
A programação da manhã prosseguiu com a mesa-redonda “Boas práticas de integração pedagógico-pastoral”, reunindo experiências das redes Claretiana e Anastasiana-Dominicana.
Pela Rede Claretiana, o Doutor Padre Diego Andrade de Jesus Lelis apresentou a experiência do Claretiano Colégio São Paulo, que tem a Campanha da Fraternidade como fio condutor do planejamento pedagógico-pastoral.
A experiência parte de um princípio: não basta inserir ações pastorais pontuais no calendário escolar. A proposta é construir um horizonte formativo comum, no qual pastoral, currículo, gestão e vida escolar estejam articulados. A apresentação mostrou a passagem de uma “pastoral de atividades” para uma “escola em pastoral”, caracterizada por unidade, intencionalidade e continuidade.
A experiência também evidenciou como um mesmo tema pode gerar diferentes caminhos de aprendizagem. A partir da Campanha da Fraternidade, áreas como Matemática, Linguagens, Ciências da Natureza e Ciências Humanas podem desenvolver abordagens próprias, enquanto a pastoral acompanha e integra o processo.
Já a Rede Anastasiana-Dominicana, representada pela Ir. Charlimene Philippe, apresentou o processo de construção colaborativa do Projeto Escola em Pastoral. Desde 2022, representantes das pastorais das unidades escolares passaram a integrar um grupo de trabalho que se reúne regularmente para estudar, dialogar, refletir e construir coletivamente os fundamentos do projeto.
Mais do que produzir um documento orientador, a iniciativa busca promover uma transformação cultural das escolas, consolidando uma identidade comum para a Rede. O currículo evangelizador é assumido como dimensão transversal da missão educativa, conferindo unidade, sentido e intencionalidade ao percurso formativo.
Entre os resultados apresentados estão a formação continuada articulada das equipes pedagógicas e pastorais, a definição de papéis para os agentes de pastoral, o fortalecimento dos encontros entre as equipes e a valorização dos espaços pastorais em cada unidade.
No período da tarde, o Seminário avançou da reflexão para diferentes dimensões da prática pedagógico-pastoral, com a realização de três oficinas temáticas. A proposta foi ampliar o olhar sobre a pastoral escolar, compreendendo-a como uma dimensão que atravessa a gestão, a cultura institucional, os processos educativos e o compromisso da escola com a realidade.
A oficina “Pastoral que gera impacto: profissionalização, gestão e sustentabilidade da missão nas escolas católicas”, conduzida pelo doutor Diogo Pessotto, colocou em evidência a necessidade de fortalecer a pastoral também a partir de processos de gestão, organização e profissionalização. A reflexão dialoga com a compreensão apresentada ao longo do Seminário de que a missão evangelizadora não pertence exclusivamente a uma equipe ou setor, mas envolve toda a comunidade educativa e precisa estar integrada à própria estrutura da escola. O currículo evangelizador, nesse sentido, é apresentado como parte de um ecossistema que articula pastoral, gestão, metodologia, avaliação e territórios sociais.
Já a oficina “Pastoralidade como cultura organizacional: como transformar a escola em espaço evangelizador”, com Jean Marcos Gwiazdecki, aprofundou a perspectiva de que a pastoralidade precisa ultrapassar a lógica de ações isoladas. A proposta de uma “escola em pastoral” apresentada durante o Seminário aponta justamente para uma mudança de cultura: a pastoralidade passa a orientar a vida escolar, articulando currículo, convivência, gestão e formação. Em vez de uma pastoral restrita a atividades, trata-se de construir uma escola cuja identidade evangelizadora esteja presente no cotidiano e nas relações.
A terceira oficina, “Ecologia Integral: uma abordagem pedagógico-pastoral”, conduzida pela doutora Daniele Saheb Pedroso, trouxe para o debate a relação entre educação, cuidado e compromisso com a Casa Comum. A temática também dialoga diretamente com a perspectiva apresentada pela manhã, que situa a ecologia integral como uma dimensão transversal da formação humana, articulando ambiente, justiça social, economia, consumo consciente e solidariedade.
Encerrando o percurso formativo do primeiro dia, a doutoranda Ir. Carolina Mureb Santos, diretora do Setor de Animação Pastoral da ANEC, conduziu a reflexão “A Pedagogia Cristã: uma reflexão a partir da fé e da vida de Maria de Nazaré”, tema que também dá nome ao livro lançado durante o Seminário pela SM Educação, com participação do pós-doutor Humberto Herrera e da própria autora.
A reflexão propôs recuperar a humanidade de Maria, compreendendo-a inserida em seu contexto histórico e cultural, como caminho para encontrar elementos capazes de inspirar a educação católica no presente.
A partir dos relatos bíblicos, foram apresentadas diferentes dimensões de uma pedagogia inspirada em Maria. A pedagogia da pergunta, por exemplo, parte do episódio da Anunciação para destacar que a dúvida e a curiosidade não são ameaças, mas podem ser o início de uma aprendizagem autêntica. A educação católica é convidada a superar a “pedagogia da resposta pronta” e a criar espaço para as perguntas essenciais da vida.
Na pedagogia do encontro, o episódio da visita a Isabel inspira uma educação marcada pela relação, pelo diálogo, pela caridade e pelo apoio mútuo. A escola é chamada a atuar como espaço de encontro em uma sociedade marcada pela polarização e pelos muros sociais.
A reflexão também abordou uma pedagogia da história, comprometida com uma leitura crítica da realidade e com sua transformação; uma pedagogia do processo, que prioriza o desenvolvimento integral da pessoa em vez da obsessão por resultados imediatos; e uma pedagogia da solidariedade, que coloca a empatia e o compromisso com os mais vulneráveis no centro da educação.
Por fim, a pedagogia da esperança foi apresentada como um “realismo esperançoso”: uma esperança que não significa ingenuidade ou alienação, mas que está ancorada na prática, recusa o fatalismo e sustenta a resistência. Para a escola católica, isso significa ser espaço de discernimento e testemunho de novas relações, reconhecendo sementes de esperança nas complexas realidades contemporâneas. Na ocasião, os participantes receberam um exemplar do livro.
O momento também foi marcado por uma novidade: o blog da Pastoral Escolar da ANEC foi apresentado em primeira mão, pelo coordenador do Setor de Animação Pastoral, Walberson Martins, aos participantes do Seminário. A nova plataforma, que será lançada em breve, nasce como mais um espaço de diálogo, formação, compartilhamento de experiências e fortalecimento da pastoral nas escolas católicas de todo o Brasil.
Ao final do dia, ficou evidente que integrar Pedagogia e Pastoralidade significa mais do que aproximar dois setores da escola. Trata-se de construir uma experiência educativa coerente com a identidade católica, capaz de escutar os territórios, dialogar com os desafios do tempo presente, formar pessoas para o encontro e colocar a esperança em movimento.
Para busca pelas associadas, utilize a ferramenta diretamente na página Associadas
Para as demais buscas no site, use palavras-chave que facilitem sua busca. Não é necessário utilizar conectivos, artigos ou conjunções. Ex: “seminário mantenedoras” em vez de “seminário de mantenedoras”