Fórum de Presidentes e Gestores reúne lideranças da educação católica para discutir os impactos da tecnologia, da inteligência artificial e das transformações culturais sobre as instituições
A expansão da inteligência artificial e das novas tecnologias impõe às instituições de ensino o desafio de inovar sem perder de vista aquilo que está no centro da educação: a pessoa humana. Esse foi um dos principais temas do primeiro dia do Fórum de Presidentes e Gestores da Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (ANEC), iniciado nesta terça-feira (6), com a participação de lideranças de instituições católicas de ensino.
Com o tema “Magnifica Humanitas: Protagonismo Humano nas Instituições Católicas na Era Digital”, o encontro propõe uma reflexão sobre como conciliar inovação tecnológica, gestão e formação humana. A discussão parte da necessidade de preservar a dignidade, a ética, o cuidado integral e a missão evangelizadora diante da automação de processos e da virtualização das relações.
A dimensão humana do encontro apareceu na Celebração Eucarística, presidida pelo padre Isaac Celestino Assis, conselheiro da ANEC-DF e vice-presidente do Grupo UBEC. Na homilia, o sacerdote destacou duas virtudes que, segundo ele, precisam ser fortalecidas nas instituições católicas: acolhida e escuta.
O sacerdote defendeu que escolas e universidades católicas sejam espaços nos quais as pessoas se sintam acolhidas e tenham sua história e suas necessidades consideradas. Também chamou atenção para a dificuldade contemporânea de escutar verdadeiramente o outro em meio às múltiplas distrações digitais.
Na abertura, a presidente da ANEC, Irmã Iraní Rupolo, afirmou que as instituições católicas precisam estar atentas às transformações do setor educacional, mas sem perder sua identidade. “Não somos melhores, somos diferentes. Nós temos uma escolha e essa escolha nós precisamos honrar”, afirmou. Para ela, a educação católica precisa permanecer ancorada no Evangelho mesmo diante das exigências do ambiente educacional e do mercado.
Tecnologia deve estar a serviço da pessoa
A presidente da Câmara de Mantenedoras da ANEC, Irmã Marli Araújo, destacou que a tecnologia pode transformar processos, mas não deve determinar os valores que orientam as instituições.
“Humanizar a tecnologia e não tecnologizar a humanidade”, resumiu, ao defender que famílias, estudantes e educadores sejam preparados para utilizar as novas ferramentas de maneira responsável.
Segundo ela, a inteligência artificial pode contribuir para melhorar processos educacionais e administrativos, mas não deve ser tratada como um fim em si mesma. A proposta, afirmou, é utilizar a tecnologia para liberar tempo e permitir que educadores se dediquem ainda mais às dimensões humanas da educação. “A tecnologia tem que ser usada para nos ajudar a viver melhor como pessoas humanas e a trabalhar melhor com o humano”, disse.
IA não substitui experiência e consciência moral
Na conferência de abertura, padre Élio Gasda, professor e pesquisador da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, discutiu as repercussões da encíclica Magnifica Humanitas para a gestão da educação católica.
Um dos pontos destacados foi a necessidade de formar estudantes capazes de pensar criticamente em uma sociedade marcada pela velocidade e pela hiperestimulação digital. Para o sacerdote, a educação precisa estar comprometida com a formação do pensamento, e não apenas com a disseminação de informações.
Gasda chamou atenção para uma diferença fundamental entre a inteligência artificial e o ser humano: a tecnologia não possui corpo, experiência, afetos ou consciência moral. “Ela não é humana. Ela não é um corpo, ela nem pensa”, afirmou.
Por isso, segundo o professor, o uso da inteligência artificial exige discernimento. Crianças e adolescentes precisam aprender a questionar conteúdos recebidos pela internet, identificar informações falsas e avaliar se determinado conteúdo respeita a verdade e a dignidade humana.
Para Gasda, a internet e a inteligência artificial também exercem uma função educativa. “Ela é uma concorrente da escola e da família”, afirmou, ao defender que pais e educadores estejam atentos às mudanças de comportamento provocadas pelo ambiente digital.
Na sequência da programação, o debate avançou para os desafios de governança e gestão das instituições católicas, a partir dos princípios da encíclica Magnifica Humanitas. O padre Geraldo Adair da Silva, reitor do Centro Universitário Salesiano (UniSales) e membro da Diretoria Nacional da ANEC, destacou a dimensão e a responsabilidade da rede de educação católica no país.
A partir da encíclica, o sacerdote propôs uma reflexão sobre o papel de presidentes, conselhos e gestores na definição dos rumos das instituições. Para ele, a governança exige uma visão de longo prazo, além da preocupação com resultados imediatos.
A pergunta central, segundo o padre Geraldo, é para onde as instituições desejam caminhar e que direção devem escolher enquanto comunidades humanas. Nesse sentido, governar significa assumir a responsabilidade de proteger as instituições, garantir sua longevidade e contribuir para decisões alinhadas à missão e à identidade de cada organização.
O consultor José Luis Bichuetti, por sua vez, destacou que uma estrutura adequada de governança não ameaça o carisma das instituições confessionais. Ao contrário, pode fortalecê-lo.“Uma boa governança instalada numa empresa confessional reforça o carisma”, afirmou.
Bichuetti explicou que governança e gestão são funções diferentes, embora complementares. Enquanto a governança, exercida pelos mantenedores e conselhos, estabelece direcionamentos, limites, avaliação e prestação de contas, a gestão é responsável por executar esses direcionamentos, cuidar das pessoas e dos recursos e fazer a missão acontecer.
Para ele, boas práticas de governança também contribuem para a credibilidade e a longevidade das organizações. O consultor citou como exemplo instituições confessionais que atravessaram séculos mantendo estruturas de governança adaptadas ao longo do tempo.
O debate foi seguido pela apresentação do case da Rede Santa Catarina, conduzida por Paulo Aquino, diretor corporativo de Educação da instituição.
Segundo Aquino, o projeto começou em 2016 e teve como principal desafio transformar decisões de governança em práticas de gestão e estratégia. A experiência envolveu a transformação de escolas que atuavam de maneira independente em uma estrutura de rede, criando condições para consolidação e expansão.
Para ele, um dos elementos fundamentais do processo foi a constância. Mesmo diante das mudanças provocadas pelas novas tecnologias, a tomada de decisão permanece essencial para garantir a continuidade dos projetos institucionais. “Leia os sinais dos tempos, mas, a despeito do tempo, siga na constância”, reforçou.
O último debate do dia foi conduzido pelo vice-presidente da ANEC, padre Charles Lamartine, com o tema “Liderar com propósito: espiritualidade e missão na gestão educacional católica”.
Pe. Charles defendeu que a gestão das instituições católicas precisa estar diretamente vinculada ao carisma e à missão da Igreja. Para ele, administrar não significa apenas alcançar resultados, mas exercer uma função de serviço. “A boa gestão deve alicerçar o carisma e a manutenção da nossa missão”, afirmou.
A reflexão abordou, ainda, conceitos de Aristóteles sobre o bem comum, o individualismo da chamada modernidade líquida e os desafios contemporâneos da liderança. Na perspectiva cristã apresentada pelo sacerdote, tanto quem lidera quanto quem é liderado deve ser reconhecido a partir da dignidade humana.
Essa visão ganha relevância, segundo ele, diante da revolução digital e da expansão da inteligência artificial. O desafio não seria demonizar a tecnologia, mas compreender como utilizá-la de maneira ética e humana.
Para o padre Charles, a liderança na educação católica deve ser entendida como serviço, e não como exercício de poder. Nesse contexto, a inteligência artificial deve ser incorporada à gestão quando contribuir para a vida, o progresso e a humanidade, sem substituir a responsabilidade humana nas decisões.
Como participante do evento, a Irmã Claudete Almeida, gestora da Escola Santa Terezinha, em Imperatriz (MA), elogiou a iniciativa da ANEC e enfatizou a responsabilidade das instituições católicas diante das transformações provocadas pela inteligência artificial.
Segundo ela, o tema é especialmente relevante para as escolas porque atinge diretamente crianças e jovens, que estão entre os principais usuários das novas tecnologias. “Como escolas católicas, precisamos estar à frente e pôr em prática aquilo que o nosso Papa Leão nos orienta referente à inteligência artificial”, afirmou.
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