Economia de Francisco e Clara

Economia de Francisco e Clara

O Papa Francisco convocou para março de 2020 uma reunião com todos os países do mundo para tratar de uma nova economia, chamada simbolicamente de “Economia de Francisco”, na linha da associação com o que seria a visão de São Francisco de Assis. Gerou-se com isso um amplo movimento, por parte de comunidades de diversas religiões, em torno de uma ideia básica – a de que a economia deve servir à sociedade, e não o contrário.

Na carta-convite aos jovens divulgada em 11 de maio de 2019, o Papa explica que Assis é o lugar apropriado para inspirar uma nova economia, pois foi ali que Francisco despojou-se de toda a mundanidade para escolher a Deus como bússola da sua vida, tornando-se pobre com os pobres e irmão de todos. Sua decisão de abraçar a pobreza também deu origem a uma visão econômica que permanece atual.

A iniciativa “Economia de Francisco” tem como objetivo “trazer gente jovem, além das diferenças de crenças ou nacionalidade, para um acordo no sentido de repensar a economia existente, e de humanizar a economia de amanhã: torná-la mais justa, mais sustentável, assegurando uma nova preeminência para as populações excluídas”. A proposta é de fazer um pacto com os jovens – para além diferenças de crença e nacionalidade – para mudar a economia atual e dar uma alma para aquela do amanhã, para que seja mais justa, sustentável e com um novo protagonismo de quem hoje é excluído.

Ao todos, 500 participantes foram selecionados para o evento que acontecerá em Assis nos dias 24 e 25 de março: uma ocasião de trabalho e aprofundamento que terão prosseguimento nos dias do evento (26-27-28), junto com todos os outros participantes. Todas as informações estão disponíveis no site www.francescoeconomy.org.

Para tratar do assunto no Brasil, a Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara (ABEF) foi criada a partir de diálogo construído com José Maria del Corral, Presidente da Fundação de Direito Pontifício Scholas Ocurrentes, em Julho de 2019, a fim de ecoar no Brasil o encontro proposta pelo Papai que acontecerá em Assis, na Itália. Para promover e articular a proposta do Papa no país, a ABEF tem reunido-se com entidades de diversos setores da sociedade civil, assim, propagando o discurso apontado pelo Pontífice para uma economia que, em princípio, deve servir para vivermos melhor, e não para estarmos a seu serviço. Uma economia que proponha-se ao bem comum, seja socialmente justa e ambientalmente sustentável. A ABEF trouxe ainda para a discussão a visão de Santa Clara de Assis, que desejava construir pontes, diálogos entre todos os povos.

De acordo com a Carta publicada pela Associação: “Escutando a silenciosa linguagem de Clara de Assis, nós nos fazemos ponte a ligar ‘os que têm de sobra com aqueles que sentem falta de tanta coisa’. Para as novas economias no século XXI, masculino e feminino tem que caminhar lado a lado, ombreados, nem à frente nem atrás, mas de mãos dadas, como o “Irmão Sol” e a “Irmã Lua”. Economia de Francisco e Clara é o que pretendemos praticar e honrar.” Além disso, a Carta aponta que “inspirados em Clara e Francisco, manifestamos nosso desejo por uma profunda mudança no enfoque até hoje estabelecido nas relações econômicas. A começar pela divisão sexual do trabalho, valorizando os saberes tradicionais das mulheres e suas formas de cuidado e respeito à natureza cíclica de nossa casa comum, o planeta Terra. O patriarcado reduziu a economia unicamente à dimensão material e produtivista. Essa concepção distorceu o sentido do bem-estar social, produzindo iniquidade e infelicidade. No caminhar junto, feminino e masculino buscam novos paradigmas:

  • da competição para a colaboração; do egoísmo para a generosidade;
  • da exploração para a sustentabilidade; da acumulação para a distribuição;
  • do desequilíbrio nas relações entre pessoas e países para o equilíbrio, com comércio justo e solidário; do consumo desenfreado ao consumo responsável;
  • da ganância ao altruísmo.

A proposta da ABEF alinha-se ao que vem sendo apresentado pela ANEC: um diálogo entre os setores que envolvem a educação na formação da sociedade como um todo.

Resumo da Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara

A Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara é um belo documento oriundo de ampla mobilização coletiva (https://anec.org.br/acao/economia-de-francisco-e-clara). Sua primeira versão surgiu em 19 de novembro de 2019 no Encontro Nacional no Teatro de Arena da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tendo recebido acréscimos de modo a vir a lume em janeiro seguinte. É parte fundamental da resposta do Brasil ao chamado do Papa Francisco para um encontro mundial de jovens de até 35 anos com sérios intelectuais e ativistas por um mundo mais equilibrado em Assis, Itália, virtualmente, entre 19 e 21 de novembro de 2020 e, presencialmente, no segundo semestre de 2020 (se as condições sanitárias permitirem), tendo como propósito, segundo ele, “realmar a economia”, apontando o caminho da transição para a um novo paradigma socioeconômico. Na Carta é expresso o compromisso com as gerações futuras pelo cuidado à Casa Comum, origem grega da palavra ‘economia’, dado que o tempo para reverter o aquecimento global está se exaurindo e o planeta tem recursos esgotáveis, não suportando sua exploração infinita. Defende que os combustíveis fósseis permaneçam no subsolo, reduzindo a extração até serem plenamente substituídos mediante o estabelecimento de um novo padrão energético assentado em energias limpas e renováveis. Trata-se de uma proposta na qual feminino e masculino caminham necessariamente lado a lado, sem primazia, daí: Francisco e Clara. Rejeita, portanto, a perspectiva patriarcal ligada à economia marcadamente materialista, produtivista e extrativista. Busca a passagem do egoísmo à generosidade, da exploração à sustentabilidade e da acumulação à distribuição. Tal economia nova não subestima a importância dos bens materiais, mas rejeita o culto à materialidade, expressa no consumismo e no grande armazenamento predial-privado de utensílios não usados. Essa economia contempla a espiritualidade, que é algo não exclusivo das religiões, como reconhecem as ciências médicas junto com a Organização Mundial da Saúde. E, conforme o exemplo de Francisco de Assis, tem perspectiva realmente inter-religiosa, além da opção preferencial pelos pobres. Preconizando princípios éticos e o real equilíbrio entre Estado e mercado, a Carta contém propostas concretas em perspectiva mais ampla: taxação específica sobre o fluxo financeiro em paraísos fiscais, bem como sobre lucros e dividendos, grandes fortunas, artigos luxuosos e prejudiciais à saúde; estabelecimento de medidas para um mundo sem megafortunas individuais e para a eliminação do capital improdutivo e especulativo; reformulação legislativa do sistema financeiro nacional tal como ele existe hoje de modo a facilitar a formação de cooperativas de crédito e bancos comunitários que fazem uso de moedas sociais; disseminação de projetos de Orçamento Participativo nos quais cidadãos são chamados a deliberar sobre a destinação dos recursos coletivos e públicos de comunidades, instituições, cidades, unidades federativas e até países; políticas de crédito facilitado a empreendimentos econômicos autogestionários, rurais e urbanos, também oriundos de processos falimentares, em que todos envolvidos sejam proprietários e trabalhadores, adoção em lei e governamental da Renda Básica da Cidadania, com base na experiência do programa Bolsa Família; implementação do serviço civil nacional, algo eticamente superior ao serviço militar obrigatório; valorização efetiva de saberes ancestrais e da diversidade cultural; desenvolvimento da experiência do Programa de Aquisição de Alimentos a partir de agroecologia e agricultura familiar com estímulo à produção de alimentos saudáveis, sobretudo para merendas escolares; ampliação da rede de Farmácias-vivas, que elaboram remédios de baixo custo para distribuição subsidiada ou gratuita, a partir de plantas medicinais; mudança condizente no currículo dos cursos de economia; e, em detrimento dos frios números do Produto Interno Bruto, dar primazia aos índices de Felicidade Interna Bruta.

 

Para acessar a carta na íntegra, clique aqui.

 

Reportagem – Carta que o Brasil levará ao encontro Economia de Francisco e Clara

 

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